O Grupo RPG Lisboa organizou no IST um dos seus encontros mensais nos
quais participei pela primeira vez, inscrevendo-me para jogar Mindjammer. Trata-se de
ficção-científica, space opera, no
sistema FATE.
Com um GM e quatro jogadores, para uma sessão de jogo prevista para 4
horas, optou-se pelo modo de construção de setting e personagens à medida que
se joga. Já estou a gostar! O GM começou por apresentar os traços gerais do
ambiente: alguns 17.000 anos no futuro, com uma Humanidade que se expandiu pelo
Universo, existem uma série de galáxias habitadas, havendo uma Nova
Comunalidade Humana, estando actualmente a decorrer o ano 190 da 2ª Era, e
tendo a faster-than-light travel sido
descoberta há 200 anos. Quem quiser conhecer o setting mais em detalhe: link.
Em termos do que existe, e do que não existe, o limite é mesmo a
ficção-científica. Ou, por outras palavras, a imaginação. E é graças a isso que
dou comigo perante o seguinte cast of
characters:
» uma nave inteligente cuja “mente” é baseada num famoso herói
explorador, mas que prefere assumir um avatar feminino, e que por ser
extremamente curiosa adoptou o nome BOBCAT (porque a curiosidade matou o gato);
» um engenheiro que viu demasiados filmes de anime e como tal tem “fétiches” com máquinas – notem que as aspas
indicam precisamente uma espécie de Herr Flick que gosta de fazer hanky panky com torradeiras;
» um urso xenomorfo igual aos do Red Alert 3, com uma particular
apetência para entrar em modo Mortal Kombat com tudo o que se mexe, e que tem
uma arma inteligente que passa metade do tempo a discutir com ele.
Ora bem, perante tal pandemónio, e porque em todo o lado é sempre bom ter
algum nível de sanidade, eu optei por ser um humano convencional, aristocrata,
segundo filho de uma poderosa corporocracia à qual dei o nome Amadeo, com uma
personalidade cínica e bastante mentiroso.
Algo muito interessante que existe neste sistema é o facto de cada
jogador ter uma quantidade de “fichas de Poker” que pode gastar para
desenvolver aspectos ao longo da história, incorporando-os no setting.
E assim começou a história, connosco no bar de uma estação espacial e com
o GM a puxar pela curiosidade da nave para a compelir a ir falar com uma
raposa. Yup, definitivamente sou o único ser normal que resta no Universo.
Ficamos a saber que a raposa chamada Lany anda stressada porque não consegue
saber o que aconteceu aos seus dois irmãos que tinham ido procurar trabalho
junto da Corporação Amadeo, em qualquer coisa associada à exploração de minério
off-planet. O engenheiro Herr Flick
entra então na Mindscape (uma espécie de mega-internet espacial) e consegue
descobrir na rede da Amadeo a existência de um projecto negro em Sauron II que envolveu 5.000 trabalhadores, mas
cujas informações são praticamente inexistentes. Decido então gastar uma das
fichas de Poker para convencer o GM a deixar-me entrar em contacto com uma
ex-namorada que é uma espécie de engenheira-chefe na Amadeo. Qual não é a minha
surpresa quando descubro que a Jana Carver decidiu passar por um processo de
trans-humanização e agora é um homem. FUCK MY LIFE! Não me basta andar numa
nave hermafrodita, operada por um tarado que gosta de explorar os extra sockets das tomadas eléctricas, e
um Chewbacca que sofre do complexo Hulk
Esmaga… e agora isto?! Não admira que esta sessão tenha decorrido no mesmo
dia em que o Festival da Canção foi ganho por uma mulher com barba!!!!! E ainda
se admiram que a maioria da malta prefira Dungeons & Dragons? Ao menos em
D&D o pior que uma pessoa pode ser é um elfo! Mas enfim, eu sou um
aristocrata, uma pessoa nobre, de classe alta, e portanto há que manter a
compostura. Graças a este contacto ficamos a saber que há algo extremamente
secreto e suspeito em Sauron II, e que envolve o meu irmão Jonhattan Amadeo.
Desejoso de me pôr a 400 anos-luz daquele freak show, aquecemos os
motores da nave e apontamos a Sauron II. À chegada, não há sinais de
comunicações nem de qualquer tipo de actividade. A nave envia umas sondas
exploratórias (nem me vou dar ao trabalho de fazer qualquer trocadilho que
envolva o engenheiro Herr Flick…), e acabamos por descobrir uma estação
espacial semi-abandonada, a perder altitude, e que dentro de pouco tempo vai
entrar na atmosfera e crash n’ burn.
No seu interior são detectados ténues sinais de vida.
Apressamo-nos a entrar na estação espacial, onde todos os sistemas
aparentam estar inoperacionais. A nave, em forma de avatar, e o engenheiro
freak tentam explorar formas de reestabelecer a inteligência artificial da
estação, e com isso “acordar” os sistemas de operação. Não estando o meu sangue
azul disposto a ficar à espera para ver que “técnicas exploratórias” o Herr
Flick ia experimentar, agarro num kit de primeiros socorros e puxo o urso pelos
bigodes para irmos à procura de sobreviventes. Deparamo-nos com uma porta de
metal soldada. Quando batemos nela, ouvimos resposta do outro lado. Peço ao
urso para rebentar com a porta, e ele decide tentar fazê-lo recorrendo “aos ensinamentos
do mestre Chuck”. Depois de algumas dentadas, arranhadelas, pontapés,
kamehamehas, chaaaaaaarge!, e afins,
lá se convenceu que precisava de usar a arma, que entretanto baptizara. Já não
me lembro que nome lhe deu, mas vamos assumir que foi Tanya. Hey, ele é um urso
do Red Alert, portanto… faz todo o sentido.
Os nossos companheiros conseguem voltar a pôr a estação a funcionar, e
nesse preciso momento começamos a ouvir o sistema de autodestruição a
iniciar-se. No meu tom altamente aristocrático e bem-falante identifico-me à
A.I. como sendo o filho de Lorde Emerus Amadeo, tendo uma security clearance de nível 4, e ordeno a paragem imediata do
sistema de autodestruição. Et voilá,
ainda não é desta que morremos.
Um dos irmãos da raposa Lany morreu, mas o outro ainda está vivo. E quem
é o evil mastermind que está por
detrás de tudo isto, tendo abandonado todos os operários à morte certa?
Precisamente o meu irmãozinho Jonhattan, com a ajuda da minha ex Jana. Que
parzinho tão amoroso. A ver se não me esqueço de enviar uma granada a cada um
pelo Natal.
Quando regressamos ao nosso planeta de origem, Safira IV, descobrimos que
temos 300 naves da polícia atrás de nós porque estamos acusados de terrorismo.
Enquanto a BOBCAT se esmifra toda para fugir à polícia, uso mais uma das minhas
fichas de Poker para contactar o Juiz Desembargador Gant, a quem ajudei a
desmascarar o escândalo que envolvia Thaddeus Clay, o associado do meu pai, e
explico-lhe rapidamente tudo o que se passa. O simpático juiz diz-me que o
melhor é entregar-me às autoridades, e a minha “empatia” com a personagem
permite-me perceber que ele também está envolvido na tramóia.
Chegamos à fase dos dados… e as coisas não correm bem! Temos 3 naves da
polícia a perseguir-nos em alta velocidade, e a nossa BOBCAT não lhes consegue
fugir (porque os dados não deixam). Os polícias lançam mísseis, e a BOBCAT não
consegue evitar um catrapázio de dano (porque os dados não deixam). Optamos por
retaliar, e disparamos contra os polícias, mas sem surtir qualquer efeito
(porque os dados não deixam). Os polícias voltam a disparar… e a BOBCAT volta a
levar dano e não se vai safar desta (porque os dados não deixam).
Bom, o que tem de ser tem muita força. Contacto o chefe da polícia, e de
forma muito aristocrática digo-lhe para cessarem de imediato as hostilidades,
porque eu sou uma pessoa importante, ao contrário do urso… que é um mero
xenomorfo. Acabamos por nos render, e a nossa nave é abordada pelos polícias.
Trato o chefe por sargento, ao que ele me responde, trombudo, que é capitão.
Decido então tratá-lo por cabo, e a partir daí tenho a noção de que fiz mais um
amigo… Insiste que tenho de o acompanhar para que a minha identidade seja
devidamente confirmada. Mas desconfio que assim que eu sair desta nave, eles
mandam-na para os anjinhos xenomorfos. E apesar de os meus companheiros serem
apenas um urso com mau feitio, um tarado que gosta de fazer bondage com
aspiradores da Rowenta, e uma nave hermafrodita… I kinda like them. Recuso-me a obedecer à polícia, e nesse momento eles
atiram uma granada de gás para o interior da BOBCAT, enquanto fecham a porta!
Fim da sessão.
Considerações
Foi uma sessão de jogo muito divertida, num espírito muito descontraído,
com o GM a potenciar as ideias dos jogadores, e a dar-lhes total liberdade para
inovar. Gostei de experimentar o sistema FATE, embora o tenha feito apenas
muito por alto, mas esta “liberdade construtiva” que permite um tipo de jogo
que puxa muito pelo roleplay, e que deixa de lado a filosofia “ou tens X ranks
e o feat Y ou então não dá”, pareceu-me algo digno de aposta.
Haha muito bom.
ReplyDeleteSerá que temos de futuro sistemas de roleplay mais focados em roleplay do que D&D?
Alex
Tu jogas numa campanha de D&D e não tens falta de roleplay. :)
ReplyDeleteSabes que estas coisas dependem sempre de quem joga o jogo. A tal ideia das “fichas de Poker” (Fate Points) é algo muito interessante para jogadores a quem o roleplay não vem tão instintivamente. Por saberem que têm ali as fichas e que as podem usar para fazer X, Y, ou Z, acabam por ter um móbil para introduzir elementos de role. Se a meio da sessão te virares para mim e disseres “humm… lembrei-me agora que outro membro da Irmandade de Icharus me enviou uma carta há umas semanas a dizer que vinha à cidade tratar de negócios, e vou aproveitar para falar com ele e enviar uma mensagem secreta ao Big Giant Head da organização”, eu não vou dizer que não o podes fazer porque não tens uma ficha de Poker. Pelo contrário, vou agarrar na ideia com unhas e dentes e pô-la em prática.
Mas, sem dúvida, estes sistemas “com menos peso de mecânica” puxam mais por ti, e menos pela folha de personagem. Parece-me positivo. :)
Ainda há lugar para 1 -3 pessoas na campanha... :D
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